Entrevista com Ecio Salles
Para Leigos®: Ecio, gostaria de começar a nossa entrevista sabendo mais de você, sua história e sua atuação profissional.
Ecio Salles: Minha história começa no Nordeste brasileiro, precisamente no estado da Paraíba, de onde meus pais vieram na década de 1960 em busca de uma vida melhor. Meu pai se tornou policial militar, minha mãe – anos depois, porque durante muito tempo foi dona de casa – fez um curso técnico de enfermagem no SENAC e exerceu a profissão até o final da década de 1990. Nasci no bairro de Olaria, na franja do Complexo do Alemão. Passei ali a infância, entre o morro, hoje famoso, e a Invernada – hoje 16º Batalhão de Polícia Militar –, famoso, já naquela época, não exatamente pelos mesmos motivos. Estudei em escolas públicas da região – o ginásio na EM Odilon de Andrade, o segundo grau no CE Clóvis Monteiro, em frente à favela de Manguinhos e ao lado da do Jacarezinho – e, ainda com 14 anos, terminando o curso ginasial, descobri duas paixões: a militância política e Machado de Assis. Em pouco tempo, o movimento estudantil e a paixão pelos livros se converteriam no jeito que eu encontraria de entrar na vida e construir alguma perspectiva de futuro. Foi isso, sem dúvida, que me fez tentar o vestibular para Letras na UERJ, depois o Mestrado em Literatura Brasileira, na UFF, e o Doutorado em Comunicação e Cultura na ECO-UFRJ. No meio desse caminho, encontrei o Grupo Cultural AfroReggae, que me ofereceu uma experiência única porque ali iniciei meu vínculo profissional – e não mais apenas afetivo – com as favelas. Atuei dez anos no Grupo e, graças a isso, pude conhecer as periferias do Brasil e da Europa. Essa experiência me abriu perspectivas novas sobre a cidade, sobre o Rio de Janeiro em especial, uma vez que um dos nossos objetivos nesse trabalho era o de justamente tentar ligar os pontos apartados da cidade, criar pontes, conectar as zonas, borrar a impertinente fronteira favela-asfalto. A partir de 2006, quando saí do AfroReggae para concluir o Doutorado, vivi outras experiências profissionais igualmente enriquecedoras, ainda mais porque, de algum modo, uma coisa levava à outra. Primeiro, fiz consultoria para o Itaú Cultural, daí refiz contatos que me levaram para a Secretaria de Cultura de Nova Iguaçu, onde mais tarde me tornaria o Secretário; de lá fui para a Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro e para a ESPOCC (Escola Popular de Comunicação Crítica), que o Observatório de Favelas organiza na Maré. No meio disso ainda houve algumas experiências esporádicas em diversos projetos.
Um outro episódio importante dessa trajetória são os dois livros que já publiquei. O primeiro (Poesia Revoltada), sobre a cultura hip-hop no Brasil, baseou-se em minha dissertação de mestrado, e o segundo (História e Memória de Vigário Geral), com a professora de História da UFRJ Maria Paula Araújo, conta a história do Parque Proletário de Vigário Geral. Hoje, estou ocupado na realização da FLUPP – Festa Literária das UPPs, que acontecerá em novembro, no Morro dos Prazeres, em Santa Tereza; além, é claro, na tarefa prazerosa de escrever este Rio de Janeiro Para Leigos®. Sou casado com Daniele, que me deu força, afeto e duas filhas que são pra mim a melhor expressão do que há de belo na vida: Maria Luiza e Heloísa.
PL: De que maneira você acredita que sua experiência profissional pode ajudar na produção da obra Rio de Janeiro Para Leigos®?
ES: Toda essa experiência de que você fala, de algum modo, teve a ver com andar pelo Rio, conhecer a cidade, de ponta a ponta. Nunca se conhece tudo, claro, mas as redes que fomos construindo ao longo da vida, nos levaram às universidades; a Vigário Geral, Lucas e Cantagalo, com o AfroReggae; à Cidade de Deus, Borel, Batan, Madureira com a Cufa e Agência de Redes; à Maré, com o Observatório de Favelas; a Nova Iguaçu com a Escola Livre de Cinema e a Secretaria de Cultura da cidade; a muitos pontos na cidade e no estado com a Secretaria de Estado de Cultura e ainda há mais. Enfim, dei a sorte de trabalhar em lugares que me permitiam viver a cidade em sua multiplicidade: não apenas o belo Rio das praias, da Lapa e Santa Teresa, mas o igualmente belo Rio das favelas, subúrbios, morros, esquinas e distâncias.
PL: O que te atraiu no tema Rio de Janeiro? Como você define a sua ligação com a cidade?
ES: Talvez o que disse antes, sobre essa característica do encontro e da multiplicidade, já responda o que me atrai no Rio de Janeiro. No entanto, tem mais coisa aí. O Rio é também uma cidade cheia de problemas: narcotráfico, milícias, trânsito caótico, abastecimento de água precário, educação e saúde deprimentes... Por isso também o tema é desafiante, instigante, atraente. Porque, com tudo isso, o Rio também produz maravilhas, como se se recusasse a aceitar apenas um lado das questões, como se conseguisse manter-se firme e confiante diante dos piores vendavais. Ainda é possível falar com otimismo sobre a cidade, apesar das flagrantes deficiências. Há, também, dois Rios que me atraem demais e definem minha ligação com a cidade. O Rio da literatura, que é o Rio de José de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo a Machado de Assis, de Lima Barreto e Costallat a João do Rio, de João Antônio a Clarice Lispector e Antonio Callado, de Rubem Fonseca, Paulo Lins e Luiz Eduardo Soares a Marcelo Moutinho, Júlio Ludemir e Marcus Faustini. O Rio foi narrado de diversas e diferentes formas, todas diferentes, todas encantadoras. E o Rio das canções: dos sambas dos primeiros anos, passando pelas marchinhas, pela tropicália e bossa nova, chegando ao rap e ao funk, o repertório das músicas que falam da cidade maravilhosa é uma trilha sonora imprescindível para a vida dos cariocas.
PL: O que é a cara do Rio de Janeiro e que não pode faltar no livro?
ES: O Rio tem muitas caras, umas são mais conhecidas, outras mais disfarçadas. O que não pode faltar é essa multiplicidade. O pôr do sol em Ipanema, o teleférico do Alemão, o Maracanã, o teatro na laje na Vila Cruzeiro, a vista do Vidigal, o baile de charm em Madureira, a calma milenar do Mosteiro de São Bento, o samba na Lapa, em Osvaldo Cruz, na Mangueira...
PL: Que lugar do Rio de Janeiro lhe desperta maior interesse? Um lugar que você com certeza vai ter prazer em abordar. Por quê?
ES: Não sei se consigo dizer apenas um, talvez o que mais me desperte o interesse sejam os lugares de fronteira, entendida aqui não como algo que separa ou afasta, mas como o espaço de encontro e de mistura. O rio é cheio desses lugares que conectam dois, três ou mais mundos. O pé do Vidigal e da Rocinha, algumas praias, a Lapa até certo ponto. Ou então o entorno da Praça XV, com as marcas dos portugueses ainda bem presentes na arquitetura, a Livraria Folha Seca na Rua do Ouvidor. Esses lugares são marcantes porque falam de um Rio de Janeiro de convivência e de potência criativa.
PL: Quais são os fatores que diferenciam o Rio de Janeiro das outras cidades? Você enxerga outra cidade no mundo semelhante?
ES: Não, mas também não acho que haja uma cidade igual a outra no mundo. Cada cidade é única, especial, tem cheiros, reentrâncias, caminhos insuspeitos que nenhuma outra tem. O que, talvez, fascine no Rio é sua vocação para o encontro, para o contato. É fundamental pensar o Rio como essa cidade dos encontros, dos diálogos interculturais, da mestiçagens e mixagens. Foi desses encontros e misturas que nasceu o carnaval, o samba, o funk e muitas outras energias culturais que são a marca da cidade. Esta cidade é vibrante, diversa e cativa qualquer um que lhe olhar nos olhos. Eu fui um desses cativados. O Rio, para mim, é quase um quintal de casa da infância: cheio de intimidades e memórias, mas também de coisas a descobrir.
PL: Quais eventos importantes acontecem no RJ? Entre as festividades que acontecem no cenário carioca qual terá um maior foco, e qual mesmo não sendo o mais visado não pode deixar de ser falado?
ES: O Carnaval é inevitável, as festas juninas também, entre tantos outros, até o Rock in Rio, por exemplo. Mas não sei ainda se uma terá um foco maior. Algo que não poderia ficar de fora? Acho que os bailes funk, em especial as rodas do “passinho do menor” – estilo de dança que mistura funk, frevo e mais um monte de referência e que são, talvez, a mais importante manifestação cultural neste momento – e as tradicionais rodas de samba e choro, que são uma marca da cidade. Outro aspecto cultural carioca marcante, que mais uma vez vai do tradicional ao contemporâneo, são as manifestações culturais religiosas, como as do Candomblé e as do movimento gospel evangélico e católico.
PL: Acredito que você vá contar também um pouco da história da cidade. Que período histórico lhe desperta maior interesse?
ES: Sim, a história do Rio de Janeiro é fascinante, não temos como não passar por isso. Os períodos históricos que me interessam particularmente são dois: os anos 1920 e os 1990. Acho que ambos têm características em comum muito fortes. Foram, para mim, momentos decisivos da história da cidade. Falarei melhor sobre isso no livro, mas posso adiantar que a década de 1920 foi decisiva para a consolidação do samba como gênero carioca e nacional. A de 1990 fez o mesmo pelo funk, e muito mais.
PL: Para o caso dos leitores cariocas, como pretende chamar a atenção de quem já conhece a cidade? O seu olhar apresentará novos aspectos para moradores do Rio de Janeiro?
ES: Quem conhece a cidade? Eu mesmo não posso dizer que conheço. Mas, sim, esepro que apresente novos aspectos para os que moram aqui, porque assim como há um Rio de Janeiro para cada autor, para cada leitor, para cada carioca ou estrangeiro, há um Rio que é de certa forma é só meu e que eu posso compartilhar.
PL: Qual será o diferencial da obra que você está escrevendo em relação às outras já existentes?
ES: Não vou responder esta. Acho que é uma resposta para o leitor dar, se ele achar que tem algum diferencial. O que gostaria de dizer aqui é que esta coleção, Para Leigos®, tem a virtude de proporcionar um diálogo leve e ao mesmo tempo consistente. Então, a tentativa aqui será a de contar uma história que, de algum modo, demonstre porque o Rio é tão especial, tão sedutor, tão encantador. Pretendo construir uma narrativa que leve o leitor a caminhar pela cidade (e eventualmente até além dela) para além dos cenários de cartão postal. A ideia é mostrar um Rio mais complexo e mais completo, na medida do possível.
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