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O fenômeno Fintech: a nova leva de startups que invadiu o sistema financeiro

Os bancos que se cuidem — ou que saiam às compras.
Alta Books 09/01/2017

O alerta veio com  uma observação curta do presidente do JPMorgan, Jamie Dimon, na carta anual endereçada aos acionistas do banco. “O Vale do Silício está chegando”, ele escreveu, “trazendo um monte de startups com cérebro e dinheiro para mudar a nossa indústria”. Era um movimento esperado por Wall Street: mais cedo ou mais tarde, os serviços financeiros deixariam de ser exclusividade de bancos e seguradoras para entrar no radar das startups de tecnologia. Se elas chacoalharam a indústria da música, dos transportes e do cinema, por que poupariam serviços tão essenciais como a movimentação de dinheiro, a emissão de cartões, a liberação de empréstimos ou a contratação de seguros? O que não se esperava era o volume e a força do fenômeno em tão pouco tempo. Segundo a empresa de pesquisa Venture Scanner, existem no mundo nada menos do que 1.406 fintechs, nome dado às novatas que fazem exatamente o que um banco faz, só que com uma estrutura bem mais enxuta (o que reduz os custos dos serviços), tecnologia de ponta (o que confere grande eficiência) e o alcance ilimitado da internet. A maior parte delas surgiu há seis anos – não por acaso, depois da crise financeira mundial. Em 2014, essas fintechs captaram US$ 29 bilhões com fundos de investimentos. E o Goldman Sachs estima que US$ 4,7 trilhões em receitas dos bancos podem ir parar nas mãos dessas “intrusas”. O alerta de Dimon, do JPMorgan, não foi à toa.

A prova definitiva do poder das fintechs veio no ano passado, quando o Lending Club, uma espécie de “Uber dos empréstimos” – que conecta via internet pessoas que buscam dinheiro a quem queira emprestar –, fez a maior oferta pública inicial de ações do segmento de tecnologia. Captou US$ 800 milhões e alcançou valor de mercado de US$ 8,5 bilhões, ficando na 15ª posição entre 835 instituições financeiras americanas. Uma façanha, sem dúvida, mas que incomoda menos pelas cifras e mais pelo sinal que traz ao mercado. Se os investidores estão apostando alto nas fintechs é porque elas conseguiram antecipar o futuro, seduzindo a geração que tira o sono dos banqueiros: os millennials, jovens entre 18 e 34 anos de idade, que não parecem nem um pouco dispostos a enfrentar a burocracia e as regras do sistema financeiro tradicional.

Uma pesquisa do Goldman Sachs mostra que 33% dos millennials acreditam que não vão precisar de um banco em cinco anos; e metade diz esperar que seus serviços sejam prestados por startups. Para que depender de uma ou duas instituições se é possível reunir uma série de aplicativos no celular? Resolver as questões financeiras em um clique é o melhor dos mundos para a turma que respira internet. Em um evento sobre fintechs, realizado no começo de novembro em São Paulo, uma frase atribuída a Bill Gates dava o tom do discurso dos donos das fintechs. Diziam os empreendedores: “Nós precisamos de serviços financeiros, mas não de bancos”.

No Brasil, apesar de os bancos minimizarem – ao menos no discurso – o impacto das fintechs (ok, temos cem fintechs por aqui, versus o milhar dos americanos), parece clara a preocupação diante do fenômeno. Há três anos, o Bradesco tem uma equipe que periodicamente vai a Nova York, ao Vale do Silício e a Londres para pesquisar novidades digitais. “Todo o corpo executivo da minha área tem a recomendação para explorar o mundo atrás de boas ideias e oportunidades nessa área”, diz Maurício Minas, vice-presidente do Bradesco. Neste ano, a companhia começou a patrocinar espaços de coworking na Califórnia e em Nova York (como uma forma de ter contato com produtos inovadores antes mesmo de eles chegarem ao mercado), fechou parceria com aceleradoras e agora estrutura um fundo de venture capital para investir em fintechs no Brasil. O InovaBRA, programa criado pelo Bradesco para acelerar startups cujos negócios tenham afinidade com o banco, está em sua segunda edição.

A vontade de entender o que ocorre lá fora é tão grande, que praticamente todo mês tem consultoria levando executivos de seguradoras e bancos brasileiros para uma imersão no Vale do Silício. Nesse tipo de viagem, geralmente de uma semana de duração, os bancos visitam instituições financeiras que estão vivendo dilema semelhante (de transformação), aceleradoras e startups. Roberto Setubal, presidente do Itaú, havia programado para o final de novembro (dias depois da conclusão desta reportagem) uma viagem à Califórnia para conversar com investidores dedicados às fintechs.

Por aqui, a única fintech que tem investimento do Itaú é a maxiPago!, que processa pagamento de e-commerce (nesse caso, um negócio que não chega a ser concorrente do banco). Mas, indiretamente, o Itaú está apostando em várias frentes. Em setembro deste ano, inaugurou, em parceria com o fundo Redpoint eventures, um espaço de coworking que já abriga 42 startups (seis delas são fintechs).

Por trás de toda essa corrida dos bancos está o reconhecimento de que, mesmo desejando, não é possível inovar na velocidade necessária em uma estrutura tão grande – e tão engessada. “Tem produto de banco que leva um ano e meio para ficar pronto, por conta de burocracias internas e procedimentos-padrão”, diz Duarte Carvalho, sócio da EY. “Na hora de lançar, o produto já está ultrapassado.” Antes de o aplicativo de gestão financeira GuiaBolso ser lançado no Brasil, por exemplo, praticamente todos os bancos tinham um projeto parecido. Ou seja, já se pensava dentro dessas instituições em como desenvolver um app que ajudasse o usuário a controlar seus gastos. Mas alguém consegue imaginar isso na lista de prioridades de um banco?

Leia a matéria completo: Época Negócios\O fenômeno Fintech

Matéria publicada em dezembro de 2015 em Época NEGÓCIOS.

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